Tudo pelo aborto: quando o ativismo se fantasia de jornalismo

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Esta semana, Cláudia Collucci, jornalista da Folha de São Paulo, usou sua coluna para botar a boca no trombone e insinuar que vários senadores estão utilizando do “caos político” para aprovar matéria legislativa relacionada ao aborto. Eis suas palavras:

Historicamente, parlamentares costumam aproveitar momentos de conturbação e incertezas políticas para realizar votações polêmicas que significam retrocessos em relação a direitos. É o que parece estar se desenhando no caso da PEC 29/2015 (Proposta de Emenda Constitucional).

Ou seja, o que ela quer é que a defesa da vida humana fique em compasso de espera enquanto o caos político se resolve. Imaginando que ela seja uma jornalista séria, ela talvez devesse fornecer um pouco de contexto ao invés de simplesmente acusar vários senadores de serem oportunistas.

Como eu já desisti há tempos de esperar seriedade de quem defende o aborto, eu mesmo posso falar um pouco sobre o contexto. O caso é que nos últimos tempos estamos assistindo a uma preocupante movimentação por parte do Supremo Tribunal Federal em relação ao aborto. Devido a esta curiosa tentativa por parte da mais alta corte do país de simplesmente atropelar a divisão entre os poderes, vários parlamentares brasileiros movimentaram-se para deixar de forma clara — ainda mais clara, como veremos à frente — que a vida a partir da concepção merece proteção em nosso país a partir da concepção, pois é ali onde ela tem seu início.

E por que eu digo que os legisladores estão tentando deixar ainda mais clara a preservação da vida humana a partir da concepção? Porque o Brasil assinou há anos o Pacto de São José da Costa Rica, que reconhece que a vida humana deve ser protegida a partir da concepção. Como este tratado relaciona-se a Direitos Humanos, o que lá está explícito ganha status de cláusula pétrea em nossa Constituição. E que o próprio STF tente legislar pisoteando a Constituição que devia defender é coisa que apenas indica bem o “caos político” em que estamos metidos atualmente.

Este é o contexto que falta ao texto da jornalista. Mas, como se trata de um texto que defende o aborto, e quem defende o aborto parece disposto a qualquer coisa, é evidente que a coisa não parou por aí.

Logo no começo de seu artigo, Cláudia Collucci assim descreveu a Proposta de Emenda Constitucional:

A proposta altera a Constituição Federal e reconhece o direito à vida desde o encontro entre o espermatozoide e o óvulo (fecundação), antes mesmo da implantação do embrião no útero (nidação).

Este “desde o encontro entre o espermatozoide e o óvulo (fecundação), antes mesmo da implantação do embrião no útero (nidação)” é uma das primeiras espertezas do artigo. Mais à frente ficará bem claro porque ela escolheu a dedo utilizar estes termos. Mas aqui mesmo já podemos questionar: a jornalista, que deu o número da PEC, que informou que ela está tramitando há um ano e quatro meses, que escreveu o dia em que a Proposta foi parar nas mãos do relator, etc., por que esta mesma jornalista não colocou as palavras que estão escritas na PEC?

Provavelmente foi porque ela não gostou do que leu ali e porque o que ali está não ajudaria muito o tom de seu artigo. Como meu compromisso é com a verdade e não com levar à frente a agenda abortista, eis aqui o que diz a PEC:

“Art. 1º – o caput do artigo 5º passa a ter a seguinte redação:

“Art. 5º – Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito a vida desde a concepção, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:” (NR)

Art. 2º – Esta Emenda Constitucional entra em vigor na data de sua promulgação”

Ou seja, o “desde a concepção” da PEC virou, no texto da colunista, “desde o encontro entre o espermatozoide e o óvulo (fecundação), antes mesmo da implantação do embrião no útero (nidação)”. Estranho este milagre da multiplicação das palavras para tentar explicar a mesma coisa, não? Para quem conhece o discurso abortista, não há nada estranho aí. Há, isto sim, método.

Logo em seguida, a sra. Collucci paga o “tributo retórico” da causa abortista. Explico: todas as vezes que alguém favorável ao aborto vai tentar defender seu ponto é só esperar que eles irão falar de três coisas: risco à vida da gestante, gravidezes resultantes de estupros e malformações fetais. Notem bem que eles jamais usam isto como forma de limitar o aborto a estes casos. Não, longe disto. Eles instrumentalizam estes casos para esconder que o que realmente desejam é o aborto amplamente liberado e a qualquer momento. Eis o que chamo de tributo no texto de Cláudia Collucci:

Qual o risco? De qualquer interrupção voluntária da gravidez passar a ser considerada crime, mesmo naquelas situações em que o aborto hoje é permitido: quando a gravidez traz risco à vida da gestante; quando ela acontece em consequência de um estupro; ou nos casos de fetos com anencefalia.

Para ilustrar este ponto do método abortista, gosto sempre de trazer aqui uma das minhas citações preferidas já proferidas por uma defensora do aborto, coisa que muita gente gostaria que ficasse na poeira da história, mas que mostra bem como se trata de puro maquiavelismo quando os favoráveis ao aborto falam sobre saúde da mulher ou má-formação fetal.

Eis o que escreveu a feminista Leila de Andrade Linhares Barsted citando Danda Prado, no artigo “Legalização e descriminalização do aborto no Brasil – 10 anos de luta feminista”, publicado na revista Estudos Feministas vol. 0 n° 0 do 2° semestre de 1992:

“(…) o único valor da proposta de lei sobre o aborto com indicação embriopática (…) a partir do ângulo da integridade e autonomia das mulheres, reside no fato de ampliar o leque de possibilidades de abortamento, como etapa tática para alcançar, dentro de uma estratégia de luta, a liberação mais ampla dos casos permitidos na lei para a interrupção da gravidez.”

Ou seja, o método é utilizar casos relacionados à saúde das mulheres e de má-formação fetal apenas como “etapa tática” para a total liberação do aborto. Claudia Collucci, talvez inadvertidamente, seguiu à risca a receita de bolo do método que as feministas/abortistas já haviam planejado nos idos de 1990. Isto não é sequer uma invenção do feminismo tupiniquim, é coisa de longa data e o mesmo expediente já foi utilizado em outros países.

Mas a colunista, logo em seguida, diz finalmente a que veio:

Sempre achei essa proposta descabida pela simples razão de que, a despeito de fantasias filosóficas, há uma enorme distância entre um amontado de células humanas fecundadas e um ser humano.

Se todo embrião já fosse uma vida de fato, a taxa de sucesso dos tratamentos de infertilidade seria de 100%. A realidade é bem diferente. Os estudos bem desenhados apontam que o índice médio de sucesso das FIVs (fertilizações in vitro) não passa dos 50%. É muito frequente os casais produzirem embriões, que, transferidos para o útero, não “grudam”, não há implantação. Outros tantos comemoram o teste positivo de gravidez, mas a gestação não segue adiante. 

Cláudia Collucci partiu para mais um clichê abortista, que é chamar o fruto da concepção de “amontoado de células”. Mas não apenas isto, ela em seguida desce mais um pouco no porão em que se meteu e afirma que o fruto da concepção não pode ser vida pois senão a taxa de sucesso em fertilizações artificiais seria de 100%.

Confesso que jamais havia visto algum defensor do aborto utilizar este tipo de “lógica”. Eu até gostaria de saber se a jornalista produziu esta idéia — chamemos assim… — por ela mesma ou se está apenas papagaiando algo que leu por aí junto à turma abortista. Ela afirmar que a partir da concepção não há vida porque procedimentos de fertilização artificial não têm sucesso de 100% é apenas um truque, mais um, de seu texto.

Tentando ser amigo, parece mesmo que ela, apesar de ser jornalista experiente, tem mesmo problema em contextualizar os fenômenos sobre os quais resolve escrever. Talvez ela pense que isto seja um raciocínio, mas ela teve a capacidade de deixar de fora a realidade biológica. Só isso. Apenas um detalhe, não?

O aborto natural de embriões pelo corpo humano é uma realidade que em nada afeta a realidade anterior do embrião, que é a de que a partir da concepção já existe uma vida humana. Este descarte é algo natural e faz parte do mecanismo que o corpo humano possui para selecionar os embriões que tem maior possibilidade de desenvolvimento, mas isto de forma nenhuma quer dizer que aqueles embriões antes de descartados não eram vida “de fato”.

O que afinal a jornalista quer afirmar? Quer ela dizer que só é vida humana o que consegue uma implantação no útero com sucesso? Não são poucos os casos em que, mesmo após a implantação, há um aborto espontâneo. E aí, era vida ou não? Na sexta semana de gestação o coração do embrião começa a bater. Se após esta semana o embrião for abortado de forma natural, então isto indicava que não era uma vida humana? Deixe-me ver: ele possuía o DNA recebido de seus pais, tinha já um coração batendo, além de outras características que ganhara nesta fase, mas, apesar de tudo isto, segundo a tese da reconhecida especialista em Embriologia Cláudia Collucci, se houver algum problema em sua gestação e ela não seguir adiante, então não era uma vida humana. É sério isto?

Mas é evidente que ela não iria parar por aí… Eis o que ela afirma em seguida:

Por isso, para mim e para muitos cientistas sérios, um embrião é um conjunto de células com potencialidade de desenvolver um ser humano. Conheço vários casos que exemplificam bem isso. Um deles é de uma amiga que sofreu um hiperestímulo ovariano em uma FIV e produziu 24 embriões avaliados como “ótimos/excelentes”. 

Eles foram congelados para serem transferidos ao útero, em grupos de quatro, evitando, assim, uma gravidez múltipla. Durante um ano, ela fez seis transferências. Em nenhuma delas engravidou. Pergunta aos nobres senadores: cadê a vida, o ser humano, nesses embriões?

Talvez ela devesse listar os tais cientistas sérios aos quais ela teve acesso. Talvez também ela devesse concluir sua teoria e mostrar a todos em qual momento o tal “conjunto de células com potencialidade de desenvolver um ser humano” passa a realmente ser um ser humano “de fato” (para utilizar uma nomenclatura que ela parece gostar. Diga lá, jornalista/ativista/embriologista, diga a todos qual o momento mágico, fora da concepção, em que aquele “amontoado de células” torna-se um ser humano.

Sobre a pergunta que ela faz, tentando dar um “truco” em quem a lê, e talvez achando infantilmente que deu um nó lógico na parte contrária, a coisa é bem simples: a vida estava lá. Aquelas vidas, aqueles seres humanos, não “vingaram” por algum motivo, ou por incompatibilidade dos pais para gerar embriões que se desenvolvam ou porque sua amiga não possuía as condições necessárias para desenvolvê-los.

(Aliás, casos como este são um exemplo pronto para se entender porque a inseminação artificial não deveria ser aceitável. Mas isto é caso para outra discussão.)

Mas podemos ir mais além. Se nós usarmos este raciocínio — novamente: chamemos assim — de que a prova de que nem todo embrião é vida humana, apenas porque nem todos conseguem se desenvolver até o término de uma gravidez, imaginemos o seguinte: e se, no futuro, a Medicina evoluir e conseguir um procedimento que garanta 100% de sucesso na implantação e posterior desenvolvimento? Será que aí a sra. Collucci iria considerar que a partir dali é tudo vida? Mas então o que define a vida não estaria mais na própria realidade científica da Ciência Biológica, mas sim na evolução dos procedimentos médicos? De novo: é sério isto?

E ela continua:

Além de representar um retrocesso imenso nas conquistas até aqui alcançadas, no tocante às circunstâncias em que o aborto é permitido, o projeto não será capaz de atingir seu principal propósito: evitar as interrupções voluntárias de gravidez.

No artigo “Evidence supporting broader access to safe legal abortion”, o ginecologista Anibal Faúndes, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), diz que leis proibitivas só contribuem para aumentar as complicações e eventuais mortes de mulheres. E que o número de abortos só será reduzido por meio de educação e acesso a métodos efetivos de contracepção.

De quais conquistas ela está falando mesmo? Não seria das “etapas táticas” para a liberação total do aborto, como ensinou a feminista Danda Prado? Ora, francamente…

É bem interessante a jornalista colocar o texto do artigo do ginecologista Aníbal Faúndes. Mas, mais uma vez, a jornalista deixa de fora alguma coisa. Ela esqueceu de dizer quem é Faúndes.

Contexto é tudo, e parece que Cláudia Collucci tem um sério problema em relação a isto. Apenas para deixar as coisas claras, devo admitir que ela não está sozinha desta vez: também a revista Veja já tentou este expediente de citar o “ginecologista Faúndes” enquanto divulgava números fictícios sobre o aborto. Como já escrevi em outra postagem, o dr. Faúndes faz parte da tropa de choque que busca a liberação do aborto no Brasil. Ele está tão à vontade nesta posição que já chegou a admitir para o Jornal da UNICAMP, que já fez abortos de fetos anencéfalos mesmo quando isto ainda não havia sido liberado pelo STF.

Ou seja, dr. Faúndes é tudo, menos isento quando o assunto é aborto. Cláudia Collucci podia ter colocado isto em sua coluna, não? Mas por que ser tão transparente quando esconder faz muito mais sentido, não é mesmo?

E é esta mesma falta de transparência que pode ter levado a jornalista a não procurar alguma fonte que pudesse contrariar o que ela estava escrevendo. Parece que boas práticas jornalísticas são mesmo coisa do passado… Se ela tivesse feito isto, talvez conseguisse ter acesso à pesquisa do epidemiologista chileno, dr. Elard Koch,  que vem mostrando que dar saúde de qualidade, educação e apoio às mulheres é o que realmente faz diferença, mesmo em um contexto de proibição do aborto, como é o caso do Chile.

E aqui no Brasil? Não se dá saúde de qualidade, não se dá educação decente, não se dá apoio às mulheres e depois gente como o dr. Faúndes vem dizer que o problema é que ainda não existe aborto liberado no Brasil.

(Uma nota interessante é que no Chile, apesar da baixa taxa de mortalidade materna mesmo com a proibição do aborto, há uma pressão absurda por partes dos mesmos grupos que também fazem pressão aqui. Curioso, não?)

Mas por que ir atrás do que anda pesquisando um dr. Elard Koch quando se tem um dr. Faúndes à mão afirmando o que se quer ouvir, não é mesmo? E é esta foma tacanha de fazer uma coluna sobre um assunto sério que levou a jornalista a terminar assim seu artigo:

Há ótimas referências bibliográficas sobre esse assunto, e os nossos representantes no Senado deveriam recorrer a elas em vez de se guiarem por crenças religiosas e convicções morais. Ainda dá tempo.

Eu li o texto da PEC e não vi qualquer referência à religião. Será que Cláudia Collucci também o leu? Se tivesse lido, veria isto na parte da justificativa para a Emenda Constitucional:

Os enormes avanços na ciência registrados nos últimos 20 anos na FETOLOGIA e na EMBRIOLOGIA com o conhecimento do nosso DNA vieram ressaltar a concepção como o único momento em que é possível identificar o início da vida humana.

Caberia à jornalista apontar onde há aí ou em qualquer outro trecho da justificação algo relacionado à religião. Mas entendemos bem o que ela quis fazer. Este é mais um dos truques utilizados pelos que defendem o aborto: dizer que quem é contra procede assim por motivos meramente religiosos. Mas será mesmo?

Aproveitando a deixa em que ela fala sobre “ótimas referência bibliográficas sobre esse assunto” — mas sem, espertamente, indicar uma única –, aqui mesmo neste blog já tivemos a oportunidade de traduzir uma compilação de uma série de citações retiradas de textos de referência em Embriologia que afirmam que a vida humana começa na concepção. Destacarei apenas uma destas referências — são 40 no total — para que a coisa fique bem clara tanto à jornalistas quanto a quem ainda tenta levar à frente esta afirmação ridícula, aos olhos da Ciência, de que não se sabe quando inicia a vida humana:

“A vida humana inicia na fertilização, o processo durante o qual um gameta masculino ou espermatozóide une-se com o gameta feminino ou oócito (óvulo) para formar uma célula única, chamada zigoto. Esta célula altamente especializada e totipotente marca o início de cada um de nós como um indivíduo único. (…) Um zigoto é o início de um novo ser humano (um embrião).”
— Keith L. Moore, The Developing Human: Clinically Oriented Embryology, 7th edition. Philadelphia, PA: Saunders, 2003. pp. 16, 2.

Esta única citação, retirada de um texto referência em Embriologia e utilizado em todo o mundo, põe por terra o raciocínio — chamemos assim… — da jornalista e todo aquele papo de que não-é-vida-porque-a-inseminação-artificial-não-funciona-100%.

Talvez ela devesse tentar fazer um trabalho jornalístico decente. Talvez ela devesse tentar ler algo diferente do que os artigos do isento dr. Faúndes. Talvez ela devesse deixar de criar espantalhos ao falar sobre religião quando nada na PEC se refere a isto. Talvez ela devesse ler algo realmente relevante sobre Embriologia ao invés de criar uma teoria ridícula, infantil e absurda sobre quando começa a vida humana.

Enfim, talvez ela devesse tentar deixar de se portar como uma ativista fantasiada de jornalista. Ainda dá tempo.

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