“Me sinto um produto de supermercado” diz mulher concebida em proveta com esperma de doador anônimo

A organização “Men Having Babies” (Homens tendo bebês) definida como “sem fins lucrativos” realizou no dia 3 de maio, em Bruxelas (Bélgica), o evento “Parenting options for European gay men” (Opções de paternidade para homossexuais na Europa). Conforme os organizadores, esse “é o maior congresso no coração da Europa dedicado a homens homossexuais que querem ter filhos”.

Nesta feira; através do comércio de óvulos, úteros de aluguel e outros serviços; se vendem filhos desenhados de acordo com o desejo dos pais – com orçamentos feitos à medida para atender os mais diversos bolsos.

Apesar de exclusivo ao público homossexual, infiltrada ali estava a belga Stephanie Raeymaekers, líder do grupo Donorkinderen, que luta pelos direitos de pessoas que são vítimas de uma transação comercial de origem: os bebês de proveta fecundados com material genético de pais desconhecidos.

(Facebook/Donorkinderen)

Ela quis estar presente para contestar o evento porque, ao criar uma nova pessoa, não se consideram os direitos desta: “O concebido é a pessoa mais importante, entretanto é o único que não tem escolha: os pais podem escolher, o doador pode escolher, o concebido não. Contudo, é ele que é literalmente ‘feito’ com o material genético de um outro.” Stephanie, que foi concebida com o esperma de doador anônimo e não consegue descobrir a identidade do pai biológico por causa da legislação belga (que a impede de saber informações sobre ele e se tem mais irmãos, filhos do mesmo doador), diz que se sente como “um produto comprado no supermercado”.

Em uma entrevista concedida a revista Tempi e traduzida abaixo pelo Contra o Aborto, Sephanie fala sobre sua história e como vê o comércio de bebês de proveta.

Stephanie, como você nasceu?

Sou uma das primeiras pessoas concebidas com o esperma de um doador anônimo, retirado de um banco de esperma; falamos dos anos setenta. Meus pais queriam ter filhos mas meu pai era estéril. Um médico aconselhou a fecundação heteróloga. Minha mãe então tomou hormônios para estimular a ovulação e três óvulos resultantes foram fertilizados in vitro com o esperma de um doador anônimo. Em 1979, nasceram trigêmeos heterozigotos: eu, minha irmã e meu irmão.

Quando você soube a verdade de como você foi concebida?

Com 25 anos de idade, porque o médico tinha aconselhado meus pais a não nos contarem nada. Essa é uma maldição mas não sejamos ingênuos. Funciona assim. Os médicos dizem para os pais não tornarem ainda mais complicada uma situação já complexa.

E como foi que você descobriu?

Da pior maneira possível. Um amigo do meu irmão descobriu e contou à namorada, que contou para o meu irmão, que me contou. Eu descobri no jantar, dia do nosso aniversário de 25 anos. Não foi exatamente a melhor maneira de me informarem, mas me alegrou saber.

Por quê?

Porque entendi muitas coisas. Finalmente compreendi essa sensação constante de não ter nada a ver com meu pai.

Como você reagiu à notícia?

No começo tive muita raiva porque durante 25 anos meus pais mentiram sobre uma informação fundamental para mim, sobre quem realmente me deu origem. Mas com o tempo a raiva diminuiu e muitas perguntas surgiram: Quem realmente é o meu pai? Está vivo? Morreu? Quantos irmãos e irmãs tenho na verdade? Ele forneceu esperma para mais pessoas? Me pareço com ele? Ele pensa em mim? Eu sei que ele não me conhece, mas talvez pense nos filhos que foram concebidos com o seu esperma. Ele fez isso por dinheiro? Para ajudar alguém? Antes minha vida era simples, agora é muito mais complicada.

Como tudo isso influenciou na vida da sua família?

Amo meus pais e amo o meu pai, que sempre será ele, ainda que não me tenha concebido biologicamente. Mas as relações foram afetadas por força das circunstâncias. Quando descobri, meu pai me disse: “O fato de que você não é minha [filha] biologicamente interfere na relação que tenho com você. Na verdade, você me lembra constantemente que eu sou estéril.”

O que significa nascer in vitro de um doador de esperma anônimo?

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Logo da organização Donorkinderen. (Facebook/Donorkinderen)

Sinto como se faltasse uma peça do quebra-cabeça. É frustrante porque quero saber de onde eu venho, mas por causa da lei não posso. Aos 25 anos tive uma crise de identidade, porque sempre acreditei ser a filha biológica de uma pessoa que não era realmente o meu pai. Era muito estranho: tudo muda, ainda que tudo permaneça igual.

O que você quer dizer?

Sou consciente de que em algum lugar há uma pessoa que talvez se pareça comigo e a quem estou ligada, que talvez tenha as minhas próprias maneiras de fazer as coisas, minhas próprias características, mas que eu não conheço. Quando ando de ônibus ou de bicicleta, sempre penso: talvez esse senhor é o meu pai, talvez aquele outro o meu irmão. É uma dúvida constante, sei que esse ser humano existe mas não sei quem é. Eu preciso responder essa pergunta para saber quem sou, mas não tenho como.

Porque você fundou uma associação?

Hoje tenho uma família e quando engravidei, pela primeira vez me refleti completamente em outro ser humano. Então comecei a entender o quanto isso me fazia falta, o quanto isso sempre me fez falta na vida. Foi um ponto sem volta. E comecei a procurar e lutar.

E os seus pais, como viram essa sua iniciativa?

Minha mãe se sente culpada, na época ela não sabia que eu teria todos esses problemas. Ela me disse um dia: “Se eu soubesse, eu não teria feito isso. Hoje não faria isso”. Ela tem orgulho de mim e me apoia.

Se você fosse um político e tivesse o poder de escrever leis, o que você faria?

Eu me sinto como um produto comprado no supermercado, a quem cortaram a etiqueta. Eu sei que eu fui comprada. Se um político escreve uma lei que permite conceber um filho com o material genético de uma terceira pessoa, deve assumir a sua responsabilidade e incluir o direito fundamental da criança concebida de conhecer as suas verdadeiras origens. Porque aqui existe um paradoxo.

Qual?

O concebido é a pessoa mais importante, entretanto é o único que não tem escolha: os pais podem escolher, o doador pode escolher, o concebido não. Contudo, é ele que é literalmente “feito” com o material genético de um outro. Não se pode condenar assim as pessoas, alegando que algumas informações não são importantes. E não é porque digo eu.

Como assim?

Se vê nas crianças adotadas, dos que nascem de outros relacionamentos. Para se saber quem é, é importante saber de onde se vem. Não sozinho. Cada vez que vou ao médico, me pedem o histórico médico da minha família, e todas às vezes respondo “sei só da metade”. É incrível que esse problema foi criado pela lei.

Outros filhos nascidos de proveta que você encontra também pensam assim como você?

Alguns não querem conhecer o próprio pai biológico, mas todos tem necessidade de falar sobre isso. O drama é que nem todos podem, talvez porque o irmão ainda não sabe ou o avô não sabe ou não se quer estigmatizar os pais. Conheço muitos que vão ao psicólogo, cheios de problemas porque não podem conhecer as próprias origens. Outros porque têm muitas perguntas mas os pais não querem conversar sobre isso.

Por quê?

Porque eles têm medo dessas perguntas, as veem como uma rejeição do seu amor e dizem aos filhos: não quero falar sobre isso, você deveria estar feliz, você tem tudo o que você precisa, não há razão para criar problemas. São muitos os que, quando me encontram, me dizem: obrigado, agora eu sei que é normal ter todas essas perguntas, porque elas fazem parte do pacote.

Geralmente se pensa que o amor dos pais é suficiente.

Não é assim, porque este método de concepção cria feridas que não cicatrizam e faz com que os filhos se afastem dos pais. Há histórias que quebram o coração. Uma menina, filha de uma mulher solteira, aos nove anos disse à mãe que queria estudar direito quando crescesse para mudar a legislação da Bélgica. Conheci uma garota de 24 anos que nasceu com uma grande mancha no rosto. Seus pais se separaram logo depois que ela nasceu, e seu pai lhe disse: “Eu não podia ter filhos e paguei um montão de dinheiro por você. E nem sequer tive uma filha perfeita, mas uma deformada”. Quando ouvi essa história, me pus a chorar. Essa ferida é maior do que qualquer mancha no rosto.

Nem todos os pais são assim.

Espero sempre que todo pai ame seus filhos de forma incondicional. Mas quando se começa a fazer contratos e acordos por dinheiro, quando se aprovam leis que permitem essas coisas, forçado o amor não é mais incondicional. Os filhos se tornam objetos. Comprei um carro, mas não quero mais; comprei uma criança, mas não quero mais. É como o slogan do congresso de Bruxelas. Voltei para casa de lá muito triste, chocada.

O que mais te chocou?

Te davam uma lista de preços e te ofereciam tudo aquilo que você pudesse vir a precisar: o advogado, o óvulos e até a mãe de aluguel. Por 5.000 euros te permitiam até escolher o sexo do bebê, masculino ou feminino. Criam seis embriões e depois escolhem o mais adequado. E os outros embriões, onde vão parar?

São descartados?

Para mim, que já me sinto um produto, isso é uma loucura ainda maior. Cedo ou tarde se poderá comprar crianças pela internet. Mas já era uma loucura nos anos setenta. Nunca deveriam ter permitido que ninguém criasse crianças com o material genético de qualquer outro. Está errado. Esta forma de conceber é errada.

Você não acha que se poderia voltar atrás?

Não sei, acho que é difícil parar este processo. No entanto, ainda assim estou lutando para garantir os direitos das crianças nascidas como eu, isso certamente é possível. Porque agora se cria uma mentira. O direito à filho não existe e nunca existiu.

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Stephanie Raeymaekers (Facebook/Donorkinderen)

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